sábado, 31 de dezembro de 2011

CENA 2

Consome-se.
Ao ponto.
Ao entrar no submundo, outra percepção se abre.
Mulheres magras de pé no chão e cabelos ao alto puxam pelo braço crianças com barrigas grandes e membros de fora a chorar.
Meninas de olhar vagante carregam no ventre a proliferação desta cadeia.
No ar, o cheiro fétido do esgoto embaça os sentidos.
A sujeira do lugar lembra um viveiro de ratos, e há muitos deles, ratos e gatos.
Das janelas é possível ver o prato de feijão aguado em cima da mesa quadrada de alumínio com quatro lugares e uma cadeira a menos que serve de apoio em substituição a um móvel ausente. A casa é povoada e a comida falta. No céu não estrelado, poluído, fios da rede elétrica brigam entre si num emaranhado que junta fios, cordões, cadarços e até uma "Adidas aranha" pendurado, possível peripécia de algum resgatador de pipas. A vida segue, não por seguir, mas porque não há outra alternativa. As pessoas caminham nas ruas como que a ir a lugar nenhum. Não há outro lugar pra ir, todos circulam entre si.
Sirene.
As roupas pretas invadem o lugar, o submundo entra em alerta, fervilhantes, as pessoas de olhar vagante escorrem para os cantos, o escuro mundo se movimenta com essa movimentação frenética.
Barulho.
Silêncio.
Escuro.
Vazio.
Consome-se, finda-se. Acaba-se.

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